“Aprendi barbeiro de pequenino e aos dezoito anos já trabalhava sozinho”.
Fala de um tio, que tinha duas filhas, e de como ele “engraçou” com uma delas e não saia de casa do tio. “Ele era barbeiro e eu aprendi com ele” de modo a poder ter um motivo para ficar por perto da filha do barbeiro. Conta que passado um certo tempo de andar “ de volta da filha” o tio começou a falar-lhe mal e que um dia lhe disse um provérbio que ele nunca esqueceu: “ o tempo perguntou ao tempo: ao tempo que tempo tens? E o tempo lhe respondeu: atrás de tempos tempo vem. E o tempo perguntou ao tempo: ao tempo que tempo tinhas? E o tempo lhe respondeu: atrás de tempos tempo vinhas”. Queira isso dizer que ele tinha muito tempo para namorar com a filha, se fosse o caso. Diz-nos também que este tio “gostava da pinga” e um dia, sem razão, zangou-se com ele, deu-lhe um soco e “ pôs-me na rua”. Ao chegar a casa, o pai dele quis saber o que acontecera e em seguida foi pedir satisfações e “ andaram os dois á porrada e tudo”. Conta que a mãe no dia a seguir foi de manha cedo á serração mandar fazer uma cadeira de barbeiro, “que antigamente eram de madeira, não era nada como esta”, referindo-se á que tem na barbearia. A mãe, continua ele, deu-lhe dinheiro para ele ir comprar tudo o precisava para se estabelecer por conta própria e lhe disse: “ deixa estar que ainda te vais rir dele! “. Foi á cidade, comprou duas máquinas manuais, que ainda guarda, pentes, tesoura, pincel e claro, a navalha. Conta que como o tio era “amigo do copito” os clientes passaram quase todos para ele, o que levou a que o tio tivesse de se rebaixar e tentar fazer um acordo com ele, de modo a não perder a clientela toda. Combinaram então que ele fecharia 4ªs e 6ªs e que ia nesse dias para casa do tio ajudar. “ Eu queria era ir para lá para ao pé da cachopa”. Diz que durante uns tempos até correu bem, mas um dia o tio voltou a beber e bateu-lhe e a partir daí ele ficou só por conta própria. Isto também fez que a possível história de amor nunca chegasse a acontecer.
“Antigamente era mais difícil”, diz, contando que tinha muitos clientes avençados, que pagavam um alqueire de milho por ano, mas esses clientes não eram atendidos aos sábados, pois “ aos sábados era só para quem pagava em dinheiro. Na altura das colheitas, corria a terra com uma carroça, para receber o pagamento das avenças, actividade com que terminou por já não dar lucro.



